Mordida na Maçã


Barriga vazia

Outro dia, li uma coluna do Gilberto Dimenstein sobre os pobres de São Paulo.

Parece que ele tinha tirado as palavras de minha boca. O texto dizia que a miséria não é privilégio do Nordeste, que São Paulo é uma capital com tantos ou mais pobres que o resto do país, que aqui também se passa fome, aqui também se vive abaixo da linha da miséria, mas que ninguém toca nessa ferida.

É melhor pensarmos na metrópole industrial do que nos seus famintos.

O mesmo engano ocorre quando os líderes mundiais esquecem do flagelo da América Latina. Quando se fala em pobreza, lembramos do continente africano. Mas e o Haiti? E o Brasil, o campeão da desigualdade social no mundo?

Esquece-se que aqui e nos nossos vizinhos há milhões de pessoas morrendo de fome. Da mais absurda fome.



Escrito por Jéssica Panazzolo às 10h19
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1ª leitura

Sempre gostei de ler. Minha mãe conta que meu primeiro presente foi um livro. Assim que ela soube da gravidez comprou "Meu dentinho malcriado". Talvez por isso eu ame ler e escove meus dentes com uma freqüência incrível.

Mas o livro mais marcante da minha infância foi "Nicolau tinha uma idéia", da Ruth Rocha. Não sei da versão de hoje, mas a do meu tempo tinha um espaço para a criança desenhar a idéia que ela queria com giz de cera ou lápis de cor. Ao invés das falas dos personagens, nos balõezinhos havia espaço para as idéias, pelo que me lembro, enquanto a autora conduzia tudo de forma onisciente.

Cara, aquilo era mágico para mim. Além de acreditar no poder transformador das idéias eu podia interferir na história e ter um livro escrito por mim e pela Ruth Rocha! Era o ápice da customização na minha cabeça!

Do alto dos meus 4 anos bem vividos, Nicolau era um maluco de cabelo estranho que vivia a andar pela cidade e a espalhar a semente de ter idéias, de ouvir as sugestões dos outros e de combiná-las para tudo ser mais perfeito.

Hoje, há uma pressão para lermos clássicos, livros técnicos, livros base, literatura pop, contemporânea, atemporal... Mas tudo, na verdade, nasce da idéia... E Nicolau tinha uma...

Mágico, instigante e fantasioso... Ninguém deveria ler mais nada antes de ler sobre as idéias do Nicolau.

Meu primeiro amigo, Nicolau, numa versão mais moderna que a daqueles velhor tempos



Escrito por Jéssica Panazzolo às 14h30
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Letrado

cena: toca o telefone

situação: pessoa quer comprar um número atrasado da revista TRIP

eu: Já que você não pode vir buscar, faça o depósito em conta e me mande o comprovante por fax.

ele: Ah, sim! Aos cuidados de quem?

eu: Jéssica.

ele: Jéssica com "J" ou "CH"?

pausa...

eu: Com "J"... por favor...

observação: Será que ele conhece alguém se chame Chéssica?



Escrito por Jéssica Panazzolo às 15h04
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Machismo nipônico

São vários os motivos que me fazem reverenciar o Japão.

Da limpeza à inteligência, do moral à disciplina. Não é preciso dizer que é um povo extremamente especial e com uma cultura milenarmente sábia e rica.

Enfim, "n" elogios poderiam ser tecidos. Contudo, o homem japonês é muito machista. Não vou comentar as lendas de que as mulheres andam atrás dos maridos na rua e coisas do tipo.

Em matéria hoje na Folha de S. Paulo, a respeito da proibição de mulheres tornarem-se imperatrizes no Japão, o ex-ministro do comércio declarou:

"Se Aiko (de 4 anos, herdeira natural se não fosse a tradição) se tornar imperatriz, se estudar no exterior e se casar com um estrangeiro de olhos azuis, o filho do casal pode tornar-se o imperador. Não devemos permitir que isso aconteça".

A declaração foi dada no contexto da votação de uma lei que permitiria que as mulheres tivessem direito à sucessão Imperial.

Veja, um homem não pode estudar no exterior e se apaixonar por uma americana loirona e peituda e resolver casar? Eles não podem ter filhos? Esses filhos não serão mestiços? Os genes não terão se misturado? É engraçado que a mulher carregue a culpa...

Mas se ela é filha legítima de um casal, de um Imperador e de sua mulher, não, ela não tem direito. É o cúmulo do pensamento tacanho. O maior orgulho dos conservadores japoneses é ter conservado a linhagem imperial por 2.600 anos, sendo a sucessão sangüínea mais aintiga do mundo. E agora se veêm encalacrados.

A última esperança é um feto que acabou de ser gerado. Se for menino, acabou-se a discussão. Se for menina.. bem, aí veremos se o machismo prevalecerá.

Aiko, única descendente do príncipe Naruhito, e sua mãe



Escrito por Jéssica Panazzolo às 10h40
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Rock'n'pó, baby

O rock tem seus clichês. Casas que tocam rock e dão um vago espaço para novas bandas têm, geralmente, fétidas paredes pretas e/ou vermelhas, cortinas de veludo empoeiradas e sofazinhos descolados.

O Camalehon é um pouco diferente. Lá tudo é branco, o que é um alívio. Mas as tristes cortinhas de veludo pesado e sujo e os pufs e sofás permanecem.

A banda toca em um úmido porão. O bacana é que tem umas mesinhas à dispoção. Você pode assitir ao show sossegado, tomando alguma coisa e comentando com os amigos.

São dois shows por sábado. O nome da primeira banda eu não sei até agora. Não, eles não disseram. E se disseram eu não ouvi porque o som dos microfones era quase nulo.

Primeiro, amaldiçoei o fato de não conseguir escutar com clareza a voz do vocalista. Depois, descobri que Deus existe e tinha sido bom comigo.

O "cantor" parecia o Hagrid do Harry Potter. Uma pessoa com mais de 30 anos, cabelos longos pretos desgranhados e encaracolados, cavanhaque e com um tecido adiposo considerável. Claro, a calça jeans se encontrava acomodada embaixo da barriga, permitindo que a pança aparecesse cada vez que o cantante levantava os braços em sua dancinha vintage. Não bastasse dar de cara com a pele e os pelos do Hagrid, tivemos que desfrutar da visão da cueca dele, que aparecia com uma constância desagradável.

O guitarrista era uma mistura de calango com He-Man. O baixista tinha uma moita na cabeça e mal mexia os pés durante o show. O baterista... bom, não sei... não vi. Havia uma quantidade expressiva de massa corpórea na frente dele, impredidno que qualquer imagem fosse registrada.

A bela banda tinha letras mais belas ainda:

"Gata, eu te adoro
Gata, eu sou o seu cavalo
E você é minha égua"

"Você não sabe chupar
(segue uma parte indecifrável)"

"Amoniaaaaaaaaaaaaa"

Óbvio, meus braços permaneceram cruzados e minha sobrancelha esquerda devidamente levantada enquanto assistia à bizarra apresentação. No final, o melhor de tudo acabou sendo a microfonia. Palmas para ela, que protegeu meus ouvidos.

A segunda banda, Condessa Safira, tinha um ótimo instrumental. Não foi possível ouvir uma palavra das letras, mas me motivou a assistir outro show deles, especialmente porque o baterista se mostrou extremamente educado.

Cada vez que ia ao banheiro, apagava as luzes e fechava a porta, nos poupando de sentir o enojante cheiro de desinfetante do local, já que estávamos sentados bem na porta do toilet. Afinal, nesse mundo competitivo, tudo acaba sendo julgado. Pontos positivos para os educados.



Escrito por Jéssica Panazzolo às 11h04
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Traído pela Internet

Ana e Marcos namoravam há 3 anos. Trocavam juras de amor adocicadas na frente dos amigos, se afagavam, prometiam um ano outro amor eterno.

Como casal moderno e confiantes que eram, freqüentavam festas de amigos e baladas separadamente. Óbvio, não havia com o que se preocupar, eles se amavam.

Um belo dia, uma menina desconhecida adiciona Ana no MSN... Ana, muito simpática e intrigada, aceita o convite e começa a conversar com a  desconhecida.

Ana: Oi, você me conhece?

Pati: Não... na verdade vou ser bem direta com você, ok?

Ana: Ok!

Pati: Ontem, fui na balada X e conheci um cara chamado Marcos... Ele deu em cima de mim a noite toda. Ficamos e trocamos telefone. Mas hoje, fui procurá-lo no Orkut e vi que tinha namorada. Li todas as promessas de amor que vocês trocam no scrapbook e resolvi te contar a verdade.

Ana:

Pati: Olha, não quero seu namorado. Não vou ligar para ele nem nada. Só resolvi te contar porque achei o fim da picada você estar sendo enganada...

Ana ficou pasma por dias... Se o que aquela menina dizia era verdade, ela tinha que comprovar! Não poderia estar sendo enganada sem desconfiar de nada, mas, ao mesmo tempo, o que ela ganharia com isso?

Foi então que as duas decidiram pegá-lo no pulo. Ambas marcaram com ele no mesmo dia no mesmo shopping em locais diferentes. Como não podia deixar de ser, o garanhão não declinou nenhum dos convites. Aceitou ambos e se preparou para enganar as duas, novamente, de uma só vez.

Ana tinha marcado na praça de alimentação. Quando Marcos chegou, antes mesmo de dizer "oi" já avisou que estava com uma dor de barriga incrível, que só havia ido em nome do amor transcedental que sentia por ela. Depois de uns 10 minutos de beijinhos e prosa, Marcos declarou que precisava ir ao banheiro, mas voltava logo para os braços da amada.

Evidente... Ele deixou Ana e foi encontrar Pati em outro local do shopping. Novamente, antes de beijá-la avisou que sua condição intestinal estava comprometida e que só tinha ido ao encontro dela porque queria algo sério e duradouro. Depois de mais 10 minutos de amassos, disse não suportar mais as intensas cólicas, tinha que ir ao toilet.

Assim foi por umas três vezes. Ele corria de uma e ia para outra com a desculpa do desarranjo.

Na última vez, Pati disse precisar ir embora. ele se despediu e respirou aliviado. Foi para a praça de alimentação, sentou-se na frente de Ana e pegou suas mãos entre as dele.

Mal sabia Marcos, que Pati estava sentada atrás dele, bem de frente para Ana, naquela mesma praça de alimentação.

- Marquinhos, você me ama de verdade?

- Claro, Aninha. Você é tudo para mim. Depois de três anos percebo que te amo mais a cada dia! Quero ter filhos com você!

- Sei... Marcos, você conhece aquela menina? (apontando para Pati)

Marcos perdeu o ar. Os olhos saltaram das órbitas, a pele embranqueceu, a boca ficou seca, as mãos tremiam e o queixo despencou.

- Você a conhece, Ana?

- Sim! Ela é a pesso mais decente que eu já conheci!

Ambas se levantaram, se dirigem até Marcos e o golpeiam com toda a força. Batem nele até não poder mais. Os seguranças assistem a tudo de longe, divertindo-se com a humilhação de um garoto apanhando veementemente de duas meninas.

As duas se cansaram. Deixaram Marcos ali, ainda bestificado com a situação. Saíram juntas enquanto os segurnaças recolhiam os cacos do cafajeste que, pelo menos, fez uma coisa de bom: apresentou, mesmo que inderetamente, as duas.



Escrito por Jéssica Panazzolo às 09h39
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