Um dia feliz
O sol bate na janela sem cortinas e Pedro acorda para mais um dia de trabalho. Toma seu banho, mas não faz a barba, veste-se, beija a esposa e vai, animado como sempre, para a garagem do prédio.
Abre a porta de sua antiga Ipanema e entra. Dá dois tapinhas no volante, vira a chave e sai. A saída da garagem do prédio de Pedro é a típica dos edifícios paulistanos de classe média, tipo eclusa. Abre o primeiro portão com o controle remoto. Espera pacientemente que feche para, então, tentar abrir o segundo.
Tentar, porque o último portão se recusa a trabalhar. Pedro, acreditando na ineficiência do controle, abre a janela à manivela e tenta colocar o controle para fora, facilitando a transmissão do comando. Tenta, porque ao esboçar o movimento para colocar o controle para fora da janela, bate o aparelho no vidro e ele cai a 3,5m do carro.
Pedro não se abate. Não por isso. Sorri e tenta puxar o breque de mão para, assim, descer do carro e pegar o controle. Tenta, porque sua queriada Ipanema lhe prega uma peça. Mesmo com o freio puxado o carro desce. Ele tenta puxar mais um pouquinho e o carro desce mais. Pedro resolve então dar mais um puxão. O breque de mão se solta e sai na mão dele.
O bom humor de Pedro é vitorioso. Com o breque de mão separado do carro e o controle remoto do portão distante do seu alcance, Pedro ri e pensa em uma solução. Após ficar ali alguns minutos, o zelador aparece.
- Eita "seu" Pedro, vai sair não?
- Então Zé... o controle do portão está no chão e eu não consigo sair do carro para pegá-lo porque arranquei o freio de mão do carro... Você pode dar uma ajuda?
Claro, que zelador não deixaria de ajudar alguém em tão desesperada situação? Abre-se o portão e Pedro, triufante, consegue sair do prédio finalmente. Olhando para a peça do seu carro acomodada no banco do passageiro, resolve ir diretamente ao mecânico da família. Não poderia passar o dia em função do carro.
- Olha, Pedro, eu não vou conseguir arrumar isso hoje.
- Mas eu não posso ficar sem carro... preciso ir trabalhar. 
- Hmmmm... O carro do seu irmão está aí. Como ele está viajando, não veio buscar, acho que você pode levá-lo.
"Que sorte!", pensa Pedro. Finalmente vai dirigir o precioso carro do irmão. Um Astra preto, totalmente filmado, cheio dos opcionais, um luxo.
- Mas, saia daqui e vá direto para um posto. O carro está na reserva da gasolina, ok?!
- Ok!!!
E lá se vai Pedro no Astra. Nem ligou o ar condicionado para não gastar o vapor de gasolina que ainda resta no tanque. Para direto no posto. Abastece, paga, entra no carro e ... nada. Mais uma tentativa, acompanhanda de um sorriso motivador, e... nada. Sem perder a calma habitual, Pedro pede ajuda no posto. O frentista abre o capô do carro, olha, mexe, vira.
- Deve ser bateria. Eu vou dar uma carga, mas você vá direto para casa. Não deixe esse carro desligar de novo se não ele pode não ligar mais, entendeu?
- Entendi.
Diante de uma previsão tão pessimista, Pedro resolve obedecer e voltar para casa. Seu dia não estava animador, afinal, mas pelo menos agora poderia se livrar do calor escaldante e ligar o ar condicionado. Ao chegar no prédio, começa a procurar o controle... "E o controle?", pensa. Claro, tinha deixado na Ipanema.
Logo encosta uma mulher atrás e abre o portão. Sorte grande!!! Não iria precisar descer e explicar para o segurança o porquê de seu carro não ter o selo do condomínio. A fim de agradecer a bondosa mulher, segue-a até a vaga que ela escolhe para parar e estaciona ao lado. Desce do carro de vidros pretos, barbudo, e vai em direção à vizinha caridosa.
- Obrig..
- Leva, leva tudo!
- O quê?!
- Esse prédio tem câmeras, não adianta querer assaltar - agarrou-se na bolsa e fugiu para o elevador.
Eis que o sorriso some. Pedro cabisbaixo sube para o seu apartamento e encontra a mulher. Conta a saga do dia à procura de um colo reconfortante: o freio na mão, a prisão na eclusa, o carro do irmão sem bateria, o esquecimento do controle, a tentativa de ser educado com a vizinha e a cara de bandido que tinha acado de descobrir que tem.
A cada capítulo de seu dia glorioso, a esposa ri mais. Ri de perder o fôlego. Então, Pedro vai tomar mais um banho. Agora tira a barba e pensa "tudo sempre pode piorar".
Escrito por Jéssica Panazzolo às 09h04
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