Amor à mesa
Alternativo, moleque e mal ajambrado. Assim Renato era visto pelos amigos e por quem quer o conhecesse. Há tempos ele estava encalhado no quesito coração. A maioria das mulheres parecia não combinar com ele e as que combinavam na paramentação eram estúpidas na conversação.
Mas um dia, Renato encontra Melissa. Menina de família, gerente de marketing de uma grande empresa, cinco anos mais velha. Não, eles não combinavam no físico, mas Renato a achava tão bacana que resolveu tentar mesmo assim. Deu certo. Ela caiu de amores.
Saiam, conversavam, transavam. Casal apaixonado, enfim. Porém, como sabemos, os relacionamentos vão caminhando, caminhando e, quando se percebe, o envolvimento é maior do que o projeto inicial. Surge aquela situação especial que coloca o sentimento à prova.
- Amor, vai ter um jantar do pessoal lá do trabalho e queria que você me acompanhasse.
- Claro, minha linda. Com que roupa devo ir? Qual o endereço?
- Esporte fino. E o endereço é esse aqui no papel.
Esporte fino. Renato não teve dúvidas. Lavou seu All Star, sacou um blazer de veludo cotelê comprado em um brechó, uma calça jeans que pagou em dez vezes em uma loja de marca no shopping, sacudiu o cabelo e foi para o restaurante. Quando parou na porta, não conseguia acreditar que o endereço estivesse correto. Ele indicava que Renato deveria entrar no Fasano.
Entregou seu carro popular ao manobrista e perguntou:
- É aqui o jantar da Esbrubles Company?
- Sim, sr. Por favor, siga-me.
Renato foi desfilando seu tênis limpo pelo salão e assistindo personalidades jantarem. Sua vontade era roubar a roupa do garçom, pelo menos assim ninguém o notaria.
Chegando à mesa teve a impressão que os colegas de trabalho de Melissa tinham presenciado a Santa Ceia. O mais novo tinha a idade de seu pai. Mas o amor o impulsionava. Sentou-se ao lado de sua amada e sorria modestamente para os olhares de pouca compreensão dos demais ocupantes.
Abriu o cardápio. Pelo menos era promessa de boa comida. Boa sim, contanto que conseguisse pedi-la. Renato amaldiçoava cada segundo da existência dos franceses. Não entendia nada que estava descrito no menu. Para não cometer a gafe de pedir, sem saber, testículos de preá, Renato apelou para a única coisa que conhecia: Strogonoff.
- Um vinho para acompanhar, sr?
- Hein?
- Um vinho. A mesa bebe um branco, chileno, com uvas da floresta de Sauvignon, da safra de 2002.
- Ah, obrigada. Me vê uma coca. Ligth!
Pedidos feitos era hora de conversar com os amigos de Melissa e passar uma boa impressão. Renato até tentou, mas não conseguiu. Os assuntos era extremamente coorporativos e numéricos. Melissa pouco lhe dava atenção, já que estava numa acalorada conversa com o chefe. Bem, restava a Renato esperar o prato chegar. Mas, para não dizer que ele não conversou com ninguém, tentou puxar papo.
- Bacana aqui, disse ele para um gerente da empresa.
- Sim... Você é o que da Melissa?
- Amigo... amigo...
Tamanha receptividade o fez voltar a brincar com o gelo da coca dentro do copo, rezando para que o jantar acabasse logo.
Já na porta do famoso restaurante, Melissa puxa papo com Renato.
- E aí, gostou?
- Muito! Adorei ficar sem ter com quem conversar e me sentir um idiota de tênis.
- Poxa, amor, também não era para vir de tênis!
O carro popular chegou, logo atrás de um modelo alemão novíssimo. Renato entrou, engatou e saiu. Não pode ouvir falar em Melissa, Strogonoff e Fasano. Prometeu a si mesmo que nenhuma mulher o fará mais lavar seu All Star.
Escrito por Jéssica Panazzolo às 13h31
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